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O futuro é a advocacia aumentada

IA redefine a advocacia sem substituir advogados, amplia funções estratégicas e pressiona carreiras iniciais, exigindo adaptação e novas competências.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Atualizado às 15:03

O principal debate em qualquer evento, roda de conversa, interação em rede social ou reflexão individual nesse momento é “qual é o futuro da advocacia num cenário de disrupção pela inteligência artificial?” Muito se discute se a IA vai substituir os advogados; a frase “o advogado não vai ser substituído por IA, mas pelo advogado que sabe usar IA” já é um dos maiores clichês do mercado.

Todo esse cenário de agitação e volatilidade causa reações ansiosas em seus diferentes participantes: sócios de escritórios de advocacia se vêem entre a cruz e a espada, sob a pressão da mudança de seus modelos de negócios, cada vez mais pautado pelo valor agregado das entregas e menos pelo valor das horas despendidas; diretores e gerentes jurídicos precisam lutar por orçamentos cada vez mais enxutos e ficam à mercê dos projetos de tecnologia das empresas, para que possam de fato inovar e entregar resultados melhores; advogados e recém-formados precisam tomar decisões individuais, mas vivem o paradoxo da escolha, sem conseguir vislumbrar um plano de médio longo prazo.

Nesse momento, é necessário se voltar aos dados disponíveis para distinguir o que é achismo do que é realidade.

Em 2023, um relatório do Goldman Sachs estimou que até 44% das tarefas jurídicas poderiam ser automatizadas pela inteligência artificial generativa - tornando o Direito uma das áreas com maior exposição à automação entre todas as profissões analisadas; a McKinsey, em estudo complementar, chegou a números distintos, mas na mesma direção: aproximadamente 22% das atribuições de um advogado e 35% das de um paralegal já seriam automatizáveis com as tecnologias então disponíveis. Uma atualização do próprio Goldman Sachs, publicada em agosto de 2025, revisitou o tema com maior granularidade e temperou o alarme inicial: embora cerca de 17% dos postos de trabalho jurídicos apresentem algum nível de exposição ao risco de substituição por IA, o cenário de demissão em massa de advogados não se confirma - ao menos não como consequência direta e imediata.

Já a Anthropic, criadora do modelo de linguagem Claude, publicou em março de 2026 o estudo Labor Market Impacts of AI: A New Measure and Early Evidence, com conclusões diretamente relevantes para o mercado jurídico. O estudo introduz uma nova métrica chamada observed exposure (exposição observada), que combina a capacidade teórica dos LLMs com dados reais de uso - diferenciando tarefas automatizadas de tarefas apenas auxiliadas por IA. Os resultados são reveladores: embora a advocacia figure entre as profissões com alta exposição teórica à automação, a IA ainda está longe de alcançar seu potencial máximo. Tarefas como representar clientes em tribunal ou exercer o julgamento estratégico seguem além do alcance atual dos modelos. Nos dados empíricos, não foi identificado aumento sistemático no desemprego entre os trabalhadores mais expostos à IA desde o lançamento do ChatGPT, em 2022. No entanto, o estudo aponta um sinal de alerta específico para o mercado jurídico: há evidências de que a contratação de jovens profissionais entre 22 e 25 anos nas ocupações mais expostas desacelerou cerca de 14% no período pós-ChatGPT - sugerindo que a porta de entrada para a carreira jurídica, historicamente ocupada por tarefas repetitivas e de menor complexidade (pesquisa, revisão de documentos, elaboração de minutas simples), é justamente a mais vulnerável à automação no curto prazo.

Já a Harvard Business Review, em artigo publicado um dia antes do relatório da Anthropic, apresentou os resultados de um working paper da Harvard Business School liderado pelo professor Suraj Srinivasan, que analisou praticamente todas as vagas de emprego dos EUA entre 2019 e março de 2025. As conclusões caminham na mesma direção: a IA generativa está remodelando o trabalho de colarinho-branco, não eliminando-o uniformemente. Após o lançamento do ChatGPT, as vagas para funções rotineiras e automatizáveis caíram 13%, enquanto a demanda por perfis analíticos, técnicos e criativos - potencialmente ampliados pela IA - cresceu 20%. No setor jurídico, o paralelo é direto: as funções mais expostas à queda são justamente as de entrada na carreira, ao passo que advogados capazes de exercer julgamento estratégico, comunicação e supervisão de ferramentas de IA tendem a ver sua demanda crescer. A pesquisa recomenda que as organizações tratem a IA como ferramenta de augmentação - e não apenas de redução de custos -, investindo em requalificação contínua como condição para que os profissionais permaneçam relevantes.

No Brasil, o panorama guarda suas particularidades. A segunda edição do Relatório sobre o Impacto da IA no Direito, divulgada pela OAB/SP em parceria com ITS-Rio e Trybe em março de 2026, ouviu mais de 1.800 operadores do Direito de seis secionais estaduais e revelou um salto expressivo: 77% dos advogados brasileiros afirmam utilizar IA frequentemente no trabalho, ante os 55% registrados na edição anterior, de fevereiro de 2025. Entre os destaques: 91% perceberam melhoria na qualidade técnica do trabalho final, mas apenas 34% das organizações jurídicas possuem orçamento dedicado à contratação de ferramentas ou capacitação em IA - revelando que a adoção ainda é majoritariamente individual, sem respaldo institucional da maior parte das bancas e departamentos jurídicos. No Poder Judiciário, o movimento é igualmente intenso: o CNJ registrou aumento de 171% em projetos envolvendo IA desde 2021, com iniciativas como o Victor (STF) e o Sócrates (STJ), e editou em 2025 a resolução 615, que estabelece diretrizes de governança, transparência e supervisão humana para o uso de IA nos tribunais. Do lado do ecossistema de inovação, o Brasil saiu de cerca de 20 startups jurídicas em 2017 para mais de 600 legaltechs ativas hoje, segundo a AB2L, consolidando-se como um dos maiores polos de inovação jurídica do mundo.

O conjunto de dados aqui apresentado aponta, de forma convergente, para uma mesma conclusão: a resposta mais assertiva ao momento de disrupção pela IA não é a substituição do advogado, mas a sua ampliação. É disso que trata a advocacia aumentada - um modelo de atuação profissional em que o advogado integra ferramentas de inteligência artificial ao seu fluxo de trabalho para expandir sua capacidade analítica, acelerar tarefas operacionais e liberar tempo para o que só ele pode fazer: exercer julgamento, construir relações de confiança, compreender o contexto do cliente e tomar decisões estratégicas com responsabilidade. Não se trata de saber usar uma ferramenta pontualmente, mas de redesenhar a forma como se advoga - com IA como infraestrutura, não como novidade.

Os dados sustentam essa escolha. Goldman Sachs, Anthropic e Harvard Business School convergem: não há colapso do emprego jurídico, mas há uma reconfiguração clara do valor. As tarefas rotineiras de entrada, como pesquisa, revisão de documentos, minutas padronizadas, são justamente as mais vulneráveis à automação e as menos valorizadas pelo mercado. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por advogados capazes de supervisionar ferramentas de IA, interpretar seus resultados e aplicar raciocínio jurídico onde o modelo falha. No Brasil, 77% dos advogados já adotaram IA no dia a dia, mas apenas 34% das organizações têm orçamento dedicado para isso, o que revela que a vantagem competitiva ainda está em disputa e que escritórios e departamentos jurídicos que institucionalizarem a advocacia aumentada tendem a sair na frente.

Adotar a advocacia aumentada como estratégia institucional significa, na prática, três movimentos simultâneos: investir em capacitação contínua dos profissionais,  não apenas no uso de ferramentas, mas na leitura crítica de seus outputs; redesenhar processos internos para identificar onde a IA gera mais ganho sem comprometer a qualidade e a responsabilidade jurídica; e posicionar-se ativamente na curva de adoção, antes que o mercado transforme o que hoje é diferencial em piso mínimo de competitividade.

Paola K. Ladeira Bernardes

Paola K. Ladeira Bernardes

Sócia responsável pelo Contencioso Empresarial e Diretora Técnica Operacional na Chenut Oliveira Santiago.

Bruno Mafra

Bruno Mafra

Gerente de Inovação e IA no Chenut.

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